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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Formação Litúrgica: Música Litúrgica II

A música na caminhada do povo de Deus

Na Bíblia, existem mais de seiscentas referências ao canto e à música. Do primeiro livro, o Gênesis, que se inicia justamente com um canto à Criação (Gn 1), ao último, o Livro do Apocalipse, que aparece como o desenrolar de uma esplêndida e majestosa liturgia, a música, o canto, a festa, parecem ser não apenas fonte inesgotável de energia para os que estão a caminho, mas a tônica dominante da própria realidade definitiva, que chamamos Reino de Deus.

A importância da música na História de Israel

O povo de Israel nasceu numa encruzilhada de culturas e civilizações. Como a Bíblia que esse povo vai escrevendo, também sua música, seu canto, carregam as marcas desse entrelaçamento cultural. Para se ter uma idéia, aproximadamente no ano 1000 antes de Cristo, sob o reinado de Davi, é que se formou uma tradição musical com identidade definida. Sua expressão é a coletânea dos Salmos. Entre todos os cânticos do Primeiro Testamento, sobressai o Cântico de Moisés e Minam (Ex 15), celebrando a esplendorosa intervenção do Deus Libertador, quando da passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho; este cântico teve importância relevante na tradição litúrgica Judeu-cristã.

A essa expressão épica da fé pascal vem se ajuntar, qual maravilhoso contraponto, o Cântico dos Cânticos, poema de amor, expressão lírica da fé de Israel, que brota de uma rica experiência do amor conjugal, carregada de sensualidade e ternura, uma faísca do Senhor. (Ct 8,6), capaz de nos transportar à intimidade mesma do amor divino.

Os relatos das Liturgias do templo deixam transparecer a alegria contagiante e o júbilo, nascido da exuberância da fé, na qual as aclamações, a música, o canto, a dança, são elementos constitutivos e eminentes da celebração da fé de um povo (1Cr 15,16; Ne 12,27- 43).

Mas são os Salmos, sobretudo, o registro mais significativo da experiência de um povo a traduzir sua vida e sua fé em música, canto e dança. Eles são o convite mais sugestivo a celebrar a vida e a fé de nossos pais, eles são o coração palpitante de toda a Bíblia. Os salmos foram o livro de canto do Povo de Israel, de Maria, de Jesus de Nazaré, dos Apóstolos, da Igreja nascente e continuam sendo, séculos afora, até hoje, o repertório elementar da celebração cristã. Todo aquele que lida com música litúrgica cristã encontra necessariamente, no Livro dos Salmos, o seu primeiro referencial.

A música na comunidade cristã primitiva

Enraizados numa tradição mais que milenar, os protagonistas do Novo testamento, Maria, José, Jesus e os Discípulos, a comunidade Cristã primitiva, são pessoas que continuam a celebrar sua fé cantando e exultando de alegria. É assim que os salmos tão frequentemente se encontram nos lábios de Jesus e são o livro do Primeiro Testamento mais citado nos livros do Novo.

Se começarmos a percorrer os Evangelhos, especialmente o de Lucas, que forneceu as referências elementares para a constituição do Ano Litúrgico, e avançarmos pelas Cartas de Paulo até chegarmos ao Apocalipse de João, logo nos surpreenderemos com a abundância e a beleza de textos poéticos. Estes, com certeza provieram da rica experiência litúrgico-musical das primeiras comunidades e marcaram significativa presença na tradição litúrgica da Igreja até hoje, tanto na Liturgia das Horas quanto na celebração da Ceia do Senhor e dos demais Sacramentos: As bem-aventuranças; três Cânticos de Lucas, marcam o ponto culminante do louvor no Oficio da Manhã (Cântico De Zacarias Lc 1,68-79), da Tarde (Cântico de Maria Lc 1,46-55) e da Noite (Cântico de Simeão Lc 2,29-32); Não podemos esquecer o cântico angélico do Glória (Lc 2,14), que originou a grande doxologia da missa; O Prólogo de João (Jo 1, 1-8), que celebra a nova Criação em Jesus Cristo; Numerosos hinos paulinos, como os dois cristológicos (FI 2,6-11; lTm 6,15-16); o hino batismal de Pedro (1Pd 2,2 1-25); os hinos e aclamações, que ocorrem a cada passo na liturgia celeste descrita no Apocalipse e são sem dúvida, como que um “retrato cantado” das celebrações das comunidades joaninas.

A constância do canto de louvor na comunidade primitiva fica bem refletida na insistente recomendação de Paulo na generosa resposta das primeiras comunidades, que tão bem a concretizaram: “Juntos recitem salmos, hinos e cânticos inspirados, cantando e louvando ao Senhor de todo o coração. Agradeçam sempre a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5, 19-20; cf Cl 3,16). Esta é uma regra neotestamentária para o canto e a música.

É curioso perceber que, na Igreja primitiva, há uma preponderância da música vocal, da palavra e do ensino da música instrumental. Não há o suporte de instrumentos aos salmos, uma ruptura completa com o paganismo, cujo uso dos instrumentos adornava os cultos idolátricos. Por essa razão, o fato de se falar em instrumentos estava muito mais ligado ao templo escatológico e à dimensão unicamente espiritual dos fiéis.

A música litúrgica na Igreja dos primeiros séculos

No ano 112 da era cristã, um autor latino, Plinio, o Jovem, em sua famosa Carta ao Imperador Trajano, assim se expressava a respeito dos cristãos: “Eles se reúnem antes do amanhecer e cantam a Cristo, a quem consideram como deus.” Em meados do século II, Justino, Mártir (+165), em sua apologia dirigida ao Imperador Antonino Pio, sublinha a excelência do louvor e do canto dos cristãos, comparados aos sacrificios pagãos.

Mais adiante, lá pelo final do século III, início do IV, Eusébio de Cesaréia (+339), comentando os salmos, dá conta de que, “através do mundo inteiro, em todas as Igrejas de Deus, tanto nas cidades como no interior e no campo, os povos de Cristo, reunidos de todas as gentes, cantam hinos e salmos (..) ao único Deus anunciado pelos profetas, em alta voz, de tal maneira que o som do canto pode ser escutado até por aqueles que estão fora do templo”.

E como é edificante escutar João Crisóstomo (+407), em homilia na igreja de Santo Irineu, em Constantinopla, exaltar a nobreza dos cristãos a transparecer do próprio canto unânime da assembléia: “O salmo que acabamos de cantar fundiu as vozes e fez subir um só canto, plenamente harmonioso: jovens e velhos, ricos e pobres, mulheres e homens, escravos e livres, todos não usaram senão de única voz. (..) Juntos, não formamos senão um coro, numa total igualdade de direito e de expressão, pelo que a terra imita o céu. Tal é a nobreza da Igreja”.

Mas é sobretudo em Milão, com o Santo Bispo Ambrósio (+397), e a seguir em Hipona, norte da África, com seu discípulo Agostinho (+ 430), que nós vamos conhecer, quem sabe, um primeiro ensaio de Pastoral da música litúrgica. Segundo Santo Agostinho, poucas coisas são tão próprias para estimular a piedade nas almas e inflamá-las com o fogo do amor divino como o canto. Dos seis primeiros séculos da nossa Igreja, época marcada pela atuação dos chamados Pais e Mães da Igreja, ou a época patrística, podemos afirmar, de modo geral, que o canto litúrgico é exaltado com inumeráveis referências bíblicas. E canto que reconhece e acolhe os valores humanos e psicológicos do cantar do povo: extravasamento saudável de emoções, comunhão de sentimentos e ideais, a alegria da festa. Os Pais e Mães da Igreja põem em evidência os valores celebrativos do reunir-se em coro para cantar: serviço da Palavra, unanimidade que manifesta a unidade em Cristo, sacrificio espiritual, profecia do reino, comunhão com os coros dos anjos e antecipação escatológica. Algo que nos parece muito atual é o fato de os Pais e Mães da Igreja falarem da música com uma visão ampla e articulada, acolhendo as diversas experiências existentes, numa prática celebrativa não distante da vida do povo e ainda não encurralada por regras ou normas intocáveis, como mais adiante acontecerá. As formas musicais desenvolvidas nesse período foram a salmodia e os hinos.

Para São Basílio (+379), no salmo, a melodia é uma espécie de mel que Deus juntou ao medicamento (as suas palavras), para torná-lo mais fácil de tomar.

O canto gera comunhão e harmoniza as diferenças: “restabelece a amizade, reúne os que estavam desavindos, converte em amigos os que mutuamente se hostilizavam. Quem será ainda capaz de considerar como inimigo aquele a quem elevou uma só voz para Deus?” (Basílio de Cesaréia)

No Pseudo-Dionísio encontramos também um ensinamento que diz que o canto põe os seres em sintonia, formando uma só assembléia de santos, onde o uníssono das vozes reflete nos corações. Gregório de Nazianzo diz que o canto dos salmos converte as horas em momentos de verdadeiro prazer espiritual. E Atanásio diz que este é um instrumento de conversão e elevação espiritual.

Nos séculos IV e V, época áurea da Igreja, surgem as “Scholae cantorum”. Até aqui, em cada ambiente eclesial consolida-se um mundo celebrativo próprio, em sintonia com a cultura local sempre aberto ao intercâmbio com experiências mais diversas. É o triunfo do pluralismo litúrgico-musical ainda aceito e respeitado pela Igreja de Roma. Um outro fator determinante de dinamismo foram a expansão missionária e o florescimento monástico.

No entanto, com o passar do tempo, nota-se que algo essencial vai sendo deixado de lado: a participação e envolvimento da assembléia. Vai se aprimorando a especialização teológico-bíblica dos compiladores de textos, a gestualidade dos ministros, a afinação dos membros das “scholae”. Cultura e música elitistas passam a ocupar e dominar o espaço do litúrgico, em detrimento da participação do povo.


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Pedagogia litúrgica - mês de abril de 2011

Abril pode ser definido como o grande “mês pascal” da Liturgia. Na realidade todos os meses celebram o dom da Páscoa, mas este se faz mais evidente, porque nele torna-se palpável a passagem da vida divina em nossas celebrações e em nossas vidas. É assim com Jesus passando e iluminando nossas cegueiras (4DQ), é assim com Jesus derrotando a morte em Lázaro para que faça sua Páscoa, saindo da morte para voltar a viver (5DQ).

Esta característica pascal se manifesta na alegria da “Dominica laetare”, que exulta de alegria pela proximidade da Páscoa de Jesus Cristo (4DQ). Exultação de alegria manifestada na simbologia da luz de Jesus Cristo, capaz de iluminar a escuridão de olhos cegos para se viver na verdade do Evangelho, correspondendo à vocação cristã de se deixar iluminar pelo Evangelho. A cura do cego nato demonstra como Jesus ilumina a vida do batizado e promove nele a graça de participar da nova criação, propondo-lhe um novo estilo de viver (4DQ), revestindo-nos com a veste da vida divina, oferecida pelo próprio Jesus Cristo, para não compactuarmos com a cultura da morte, mas sempre com a promoção da vida (5DQ). O cristão não é um monte de ossos ressequidos, pois seu corpo é morada do Espírito de Deus, quer dizer, do Espírito que enche a vida humana com a vida divina. O cristão que se faz discípulo de Jesus não vive em sepulturas, mas na festa da vida (5DQ).

Diante da Cruz

Um bom modo de viver a Semana Santa é colocar-nos diante da Cruz de Jesus Cristo. No momento da crucifixão, três grupos de pessoas passaram diante da Cruz: aquele povão, que buscava um pop-star, mas se decepcionou quando o viu fazendo a vontade do Pai, os intelectuais com uma cultura incapaz de compreender a lógica divina, e os malfeitores, que foram crucificados com Jesus, um de cada lado. Em qual destes grupos você se identificaria, hoje. A resposta só pode ser dada depois de refletir profundamente como você vive a vida cristã, se próximo ou distante de Deus. Mas, existem outros convites para se entrar bem na Semana Santa. Jesus, por exemplo, passou aquela Semana marcada pelo sofrimento fortalecendo-se na certeza que voltava ao Pai. É com este espírito que ensina o caminho através do serviço, pelo gesto do lava-pés. Um gesto de serviço, que não nos deixa desanimar diante da visão da Cruz. Mesmo assim, é preciso reconhecer que perguntas e questionamentos jamais cessaram (nem cessarão) diante do sofrimento; de todas as formas de sofrimento. De algum modo, todos beberemos (alguns irmãos e irmãs bebem) deste cálice tão amargo para a humanidade. Diante desta Cálice, que Jesus pede para ser afastado, é possível presenciar em Jesus a sede de fazer a vontade do Pai. O cálice da vontade do Pai é mais importante que o medo do cálice do sofrimento e da morte. O Pai reconhece o amor de Jesus, aceita seu sacrifício e o livra da morte, ressuscitando-o.

Diante da Ressurreição

A força da Páscoa não se esconde somente no fato histórico, acontecido em Jesus Cristo. Mais que uma realidade histórica, é também uma realidade que aconteceu na vida de Jesus Cristo: ele morreu e o Pai o ressuscitou. É também uma realidade que se atualiza em nossos dias, nos sacramentos celebrados na Igreja, através do testemunho vivo dos discípulos de Jesus, na promoção da vida onde a humanidade (de hoje) esquece ou tenta afastar Deus da sua história.

A Ressurreição de Jesus traz uma realidade nova para o mundo: nós podemos participar da vida divina, porque pela Ressurreição de Jesus o mundo de Deus entrou definitivamente no mundo humano. O modo como participamos da vida divina é semelhante ao fermento que leveda a massa do pão: é uma experiência interior, que faz crescer o amor e a fé dentro de quem se torna discípulo amado de Jesus. Este não exige muitas provas porque é capaz de ler na simplicidade dos sinais a passagem divina.

Formação Litúrgica

Ministério de Leitores

A Liturgia da Palavra é uma celebração. É necessário, pois, que se note que celebramos a Palavra, como depois celebramos a Eucaristia.

Assim, não é nem um momento de leituras atropeladas que se colocam antes da homilia e da celebração eucarística; nem uma reunião de instrução ou de discussão que, depois, concluirá com os ritos eucarísticos (que ficarão, assim, desvalorizados, porque não são tão "instrutivos").

O serviço do leitor é muito importante dentro da assembléia. Os que o realizam devem estar conscientes disso e viver a alegria e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de ser os que tornarão possível que a assembléia receba e celebre aquela Palavra com a qual Deus fala aos seus fiéis, aqueles textos que são como que textos constituintes da fé.

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